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WICCA

A Wicca é a bruxaria renovada, a nova roupagem da antiga religião Celta. Seus ritos, apesar de adaptados aos dias de hoje, procuram ser fiéis às antigas práticas pagãs. Sua filosofia e preceitos renasceram e tomaram fôlego no princípio deste século, emergindo da obscuridade que sufocou durante mais de 700 anos a prática de sua fé. Mas afinal, o por que desta clandestinidade? Porquê a bruxaria carrega até hoje o estigma que a maculou séculos atrás? Em qual momento as bruxas foram colocadas à deriva da história e tiveram sua dignidade lançada a tantas milhas de distância e quantas faltam para resgatá-la?

A História
A Cristianização dos povos Celtas (séc. I) não impediu como já vimos nem a prática dos ritos pagãos, nem o crescimento de seus adeptos. Embora existissem casos isolados de perseguição fanática e intransigências religiosas por parte dos mais estóicos, o Cristianismo de certa forma tolerou a bruxaria e ambos coexistiram dentro de um mesmo ambiente em visível ebulição durante 10 séculos seguintes. No auge da Idade Média a magia também atingia seu apogeu. Suas características investigativas atraiam os que queriam algo mais que apenas crer na doutrina imposta e imutável do cristianismo. Suas práticas mágicas que resultavam em curas fantásticas e nítidos poderes, seduziam os mais inquietos e seus Deuses benevolentes, reflexos de um mundo natural, contrastavam enormemente com o austero deus único do Cristianismo. A bruxaria crescia, ganhava adeptos, sua essência feminina e maternal abraçava os camponeses sofridos e massacrados pelos senhores feudais, seus ritos da natureza e a visível união do mundo material com o mundo mágico, símbolos de uma vida equilibrada, fortaleciam os alicerces de sua espiritualidade. Pouco a pouco, porém, esses mesmos méritos que legitimaram a bruxaria e contribuíram para seu crescimento transformaram-se em forte artilharia contra a Igreja, que tornava-se cada vez mais temerosa pela perda de adeptos e pela incapacidade de explicar e os mistérios do homem e da natureza da mesma maneira que a bruxaria podia e fazia com tantos resultados prodigiosos...

A Inquisição
Movimento de perseguição às religiões nativas e pagãs, que culminou na terrível inquisição no ano 1231, teve na verdade seu início séculos antes com as primeiras reações do clero contra a ascensão da bruxaria e das ordens reformistas consideradas heréticas. Os reformistas eram formados na sua maioria por cristãos dissidentes da igreja oficial que indignaram-se com o poder político e a pompa imperial com que os líderes da igreja foram se cercando através dos séculos. Exigiam assim a volta à piedade pura de Jesus e à simplicidade de seus ensinamentos. Entre eles, os que mais ameaçaram a igreja com seu ascetismo fervoroso foram sem dúvida os catáros que espalharam sua doutrina por boa parte do continente durante os séculos XII e XIII. Se a Igreja estava, por um lado, cercada pelos reformistas radicais, que conquistavam a simpatia do povo por sua simplicidade, estava por outro perdendo terreno para a bruxaria e seus dogmas panteístas que atraíam não só os camponeses, mas um número cada vez maior de estudiosos e nobres da aristocracia européia. Assim, decidida a erradicar de uma vez por todas todos os hereges, que ameaçavam a igreja e seu poderio político, espiritual e financeiro, teve início a Inquisição, por um decreto outorgado pelo papa Gregório IX. Nos cinco séculos seguintes a Inquisição aniquilaria aos milhões todos os inimigos do cristianismo; bruxas, hereges, e todos aqueles que, de alguma maneira, não seguiam os ditames da igreja oficial eram assassinados, em sua grande maioria, queimados vivos. Estima-se que do século XII ao séc.XVII, mais de 10 milhões de pessoas tenham sido mortas por essa sangrenta instituição.

A Desculpa
É claro que a igreja necessitava ter para todos os efeitos, argumentos cabíveis que explicassem tantas mortes e perseguições . Era preciso antes de mais nada atribuir alguma culpa às vítimas, transformando-as assim em vilãs. Assim, a imagem da bruxaria foi brutalmente denegrida. Todos seus ritos foram deturpados, seus Deuses transformados em demônios e sua filosofia associada ao mal e à loucura. É óbvio que as mulheres foram as grandes vítimas da Inquisição, não apenas pelo fato da igreja exercer, nessa época, um patriarcado machista e ortodoxo que reduzia a mulher a um ser inferior e "sem alma", mas sobretudo pelo fato da bruxaria ter nascido a partir do culto de uma Deusa Mãe e ser, por essa razão um reflexo religioso do eterno feminino. Em 1486, o Papa Inocêncio III encomendou a dois monges dominicanos, Heinrich Kraemer e Jacob Sprenger, um verdadeiro tratado de caça às bruxas. Nesse "Manual do Inquisidor", deveriam ficar claros para uma fácil identificação todos os segredos, códigos e artimanhas usados pelas bruxas em seus ritos e práticas. Foi assim que a famosa obra "Malleus Malificarum", também conhecido como "O Martelo das Feiticeiras", tornou-se a maior peça de publicidade contra a bruxaria, afirmava, entre outras calúnias, que eram adoradoras do demônio e partidárias de sacrifícios hediondos em homenagem a ele. É irônico concluir que foi a própria igreja que criou a figura do diabo e o associou ao Deus Cernunnos, o Deus cornífero dos celtas e da bruxaria. Foi por essa razão que o demônio "gerado " pela igreja traz ainda hoje os mesmos chifres que desde as culturas neolíticas simbolizavam simplesmente o respeito pela caça e pelo caçador. Foi assim que através de uma perseguição sem limites que a bruxaria foi banida do panorama europeu e sumiu em sua clandestinidade durante os séculos seguintes.

O Renascimento da Bruxaria
Mesmo após o esfriamento da turba inquisitória e da volta a uma quase tolerância religiosa, a bruxaria ainda era marginalizada e manchada de culpa. Aos poucos, sua imagem deturpada e enfraquecida deixou de representar uma ameaça e foi praticamente esquecida durante os séculos seguintes, marcados pela racionalidade do Iluminismo e do Empirismo. O mundo assistiu à revolução industrial e carregou-se de uma visão materialista e analítica. A era do capitalismo e dos filósofos ateus não deixou espaço para a magia. No início do nosso século, o interesse pela espiritualidade e pelos segredos do universo foram pouco a pouco reinstalando-se. A Bruxaria, como outros temas religiosos esquecidos no passado, ergueu-se no interesse isolado de alguns pesquisadores. Foi assim que, depois de minuciosos exames nos registros dos julgamentos deixados pela inquisição, a antropóloga inglesa Margaret Murray publicou em 1921 suas pesquisas desmistificando a conotação do mal que a igreja impôs sobre as antigas religiões pagãs. Margaret também trouxe à luz várias características da velha religião. Descobriu seus Deuses e sua tendência matriarcal sedimentada pelo culto à Diana. Murray escreveu: "Era uma religião alegre, repleta de festejos e Deuses generosos. Reverenciava a natureza e sabia transformar a realidade através da magia. Isso era incompreensível para os sombrios inquisidores, cujo único recurso foi destruí-la até as mais tenras raízes." Ainda no começo do século outros pesquisadores escreveram sobre o tema, como o folclorista americano Charles Leland, com sua obra "Aradia", e o poeta inglês Robert Graves, com sua respeitada obra "A Deusa Branca". Porém, foi em meados do século, principalmente com a revogação das leis anti-bruxaria na Inglaterra em 1951, que os primeiros livros escritos por bruxos praticantes foram publicados. De todos esses bruxos, o que atingiu maior notoriedade foi Gerald B. Gardner, antropólogo amador pouco afeito a convenções que instaurou os velhos ritos pagãos e praticamente instituiu os novos estatutos da atual bruxaria. O discípulo mais contundente de Gardner, Raymond Buckland, foi para a América decidido a propagar esse renascimento do ocultismo pagão. Nessa época, por volta de 1960, inúmeros covens (grupos de bruxos) e assembléias de bruxos surgiram. Sentindo-se livres finalmente para se expor, espalharam-se pela América e outras partes do mundo. Claro que desse crescimento surgiram inúmeras variantes da Wicca. Na verdade, todas elas refletem sua natureza eclética e aberta, sem dogmas estatizados e em constante movimento. A Wicca hoje é o resultado de todos esses processos. Ainda que diversos grupos discordem quanto a prática de alguns ritos e símbolos, todos comungam da mesma fé na grande Deusa da natureza. Sua essência pura e materna conduz todos os seus filhos sempre para um mesmo objetivo comum: o equilíbrio do corpo e do espírito, da matéria e da magia; duas metades indivisíveis e unas, sempre através e em nome da Deusa, de seu amor incondicional, e de seus laboratórios encantados que afloram na natureza.

Os Fundamentos de Wicca
A Wicca como já vimos segue os mesmos preceitos dos antigos celtas. Sua magia é a magia do cotidiano, sua fé é investigativa e irriquieta, e fundamenta-se em três fatores bem definidos: o animismo (ou a idéia de que tudo no universo está impregnado de vida), o panteísmo (segundo o qual a divindade é parte essencial da natureza), e o politeísmo (ou a convicção de que a divindade é ao mesmo tempo múltipla e diversificada). Seus dogmas e tradições giram em torno da natureza, assim como seus Deuses, reflexos divinos do mundo visível. Sua cultura é a cultura da simplicidade; seu caminho, o da busca e do conhecimento; seu objetivo, a felicidade. É uma religião de vida. Cultua o presente e tenta fazer dele momento único; "Seja Feliz!", dizem as bruxas, mas nunca em prejuízo de nada ou de ninguém. Seja feliz através de seus próprios méritos e utilize nesta busca todos os ingredientes e sinais que a mãe natureza pode oferecer. Wicca é a bruxaria renovada, é a capacidade de transformar a realidade através da magia. Busca a integração do ser humano com a natureza e com as divindades. Wicca é o resgate da magia que séculos atrás moveu o mundo, e transformou desejos em realidade.

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